Marco Florentino
Em prosa e verso
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VERGONHA ALHEIA (UM DESABAFO EXISTENCIAL)
VERGONHA ALHEIA (UM DESABAFO EXISTENCIAL)

Neste fatídico domingo de 04/10/2026, acordei cedo animado pelo fato de achar que as eleições neste primeiro turno já iriam definir Luiz Inácio Lula da Silva como presidente reeleito.

Minha convicção se baseava na constatação visível e mais do que lógica: a comparação entre a gestão bolsonaro e as de Lula.

Mais que isso, o fato incontestável de que Lula herdou em 2023 um país abaixo das lama, destroçado, sem políticas públicas, sem proteção trabalhista, sem correção salarial digna, destituído das instituições básicas dum país equilibrado, sem credibilidade nacional e internacional, com seu povo desprotegido voltando para o mapa da fome, fazendo fila para conseguir osso com um pouquinho de carne, mas principalmente com um déficit fiscal de mais de duzentos bilhões de dólares.  

Conseguiu, a despeito de um congresso altamente corrupto e reacionário, pra não dizer bandido, reequilibrar as contas públicas, corrigir as condições salariais dos trabalhadores através de aumentos acima da inflação, retirar o Brasil pela segunda vez do mapa da fome e tantas e tantas e tantas outras ações benéficas à população mais carente.

Eis que hoje, convicto de que Lula seria reconhecido por essa massa significativa de vulneráveis famélicos que deixaram de mendigar por migalhas e passaram a ter um mínimo de dignidade através de programas sociais relevantes como o bolsa família, pé de meia, minha casa minha vida e tantos outros, constato surpreso que não só foi eleito no primeiro turno como vai pro segundo com um percentual abaixo do seu adversário, um bandido miliciano, pervertido, corrupto, ladrão comprovado do dinheiro público e que não tem um sequer histórico de trabalho útil para a sociedade.

Minha decepção é grande, minha indignação maior ainda. Como tal comportamento dessa massa carente pode ser explicado? Tenho certeza que nenhum cientista político ou sociólogo consegue racionalmente achar a resposta.

Um miserável ou pobre de direita? Um ¨fudido¨ que defende e elege seu opressor?

Na minha história de vida, desde meus tempos de estudante universitário fazendo medicina na UFPA de Belém do Pará, logo no primeiro ano de faculdade ingressei no movimento estudantil
através dos diretórios acadêmicos da saúde e DCE - Diretório Central de Estudantes.

Mesmo com as restrições do melhor amigo em vida, meu pai, oficial superior da aeronáutica, me alertando do chamado que ele recebeu do estado maior do primeiro COMAR - Comando Aéreo Regional em Belém/PA, para que me repreendesse por ter ação num movimento considerado de esquerda e reprimido à época pela ainda ditadura militar do Presidente João Figueiredo, continuei na militância em favor de melhores condições de ensino, tanto materiais como funcionais.

Por ironia do destino, logo após minha formatura médica, fui convocado e incorporado à Marinha do Brasil, na qual passei momentos inesquecíveis e de regozijo nos confins da Amazônia, mas nunca esquecendo minha verve humanitária, caridosa e voltada para o bem estar das pessoas mais desprovidas.

Também como médico concursado da Caixa Econômica Federal durante vinte anos, dentro das minhas possibilidades, sempre procurei proteger os trabalhadores das injustiças impostas pelas condições opressoras herdadas duma cultura secular.  

Na minha experiência no magistério público (municipal - Belém/PA), privado (escolas religiosas e laicas) e universitário (UFRN), procurei apoiar de forma mais contundente os alunos carentes.

Igualmente nas inúmeras instituições hospitalares em que trabalhei, privadas e públicas, em Belém, Manaus, João Pessoa, Natal e Fortaleza, na condição de médico emergencista, sempre procurei dar atenção ao ser humano no pior momento da sua vida... o momento de dor e de finitude da morte.

Enfim, até hoje, na condição de emergencista em hospitais privados (HAP) e públicos (Municipal de Caucaia - este em processo de aposentadoria), ainda me esforço, apesar da idade senil - 66 anos, em fornecer alento e esperança aos debilitados, doentes e esquecidos de Deus e da sociedade.

Entretanto, a partir de hoje, rompi com minha convicção baseada em princípios éticos construídos ao longo de uma vida profícua, venturosa, pujante e intensa.

Ao 66 anos de idade, graças a essa incompreensível distopia social e política que se estabeleceu no país, resolvi me isolar socialmente. Não consigo mais ter paciência e tolerância com gente esclarecida e educada do ponto de vista instrucional.

Pior que essa gente esclarecida é o chamado pobre de direita, na grande maioria neopentecostal, essa praga herdada dos EUA.

Só isso pode explicar o resultado do primeiro turno dessa eleição de 2026, em que um bandido pervertido e mentiroso fica à frente do maior estadista político e social que o Brasil já teve.  

Quero deixar bem claro que se Flávio Bolsonaro ou Lula ganharem, pra mim nada muda. Sou um trabalhador privilegiado... em verdade mais um membro da elite elitizada, porém até agora com olhos para o carente, o pobre sofredor.

Mas a partir de hoje, independente de quem venha ganhar essa eleição, não vou mais me deixar emocionar por quem é pobre, carente, sofredor mas vota no seu opressor.

Também não quero mais contato com qualquer um que deteste Lula, seja quem for, pois tenho a firme convicção que essas pessoas são ruins, ressentidas, complexadas, mal amadas e sofridas, achando que a culpa dos seus sofrimentos é da sociedade.  

Tenho o privilégio de chegar aos meus 66 anos de idade sem precisar de ninguém, seja quem for. Prefiro mil vezes minha solitude a sós. Infelizmente cheguei num ponto que pensei nunca chegar: só considero com amor o ser humano doente. Se conseguir se curar eu passo a desprezar, pois sou Hobbesiano: o ser humano é ruim, egoísta e cruel por natureza. Só não leva a cabo sua pretensão destrutiva por ter o estado (e suas leis) como freio.

Talvez a explicação da existência do pobre de direita, que vota no seu algoz... a facção bolsonarista.

Marco Antônio Abreu Florentino

https://youtu.be/CosRQ_aojps
(Hello Of Flies - Alice Cooper)
Marco Florentino
Enviado por Marco Florentino em 05/10/2026
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