A EUFORIA CEGA DO CONSOLO
A EUFORIA CEGA DO CONSOLO
Com seu vasto conhecimento cultural, filosófico e literário, somados à sua sensibilidade e talento poético para se expressar com palavras, Oliver Harden resumiu, num belo e profundo texto, o que eu tentei repassar no meu artigo anterior chamado ¨O Deslumbre da Baixa Auto Estima¨, escrito no dia da premiação do Oscar pela Academia de Cinema de Hollywood, antes mesmo de saber o resultado.
Em verdade, mesmo não sendo um profeta ou adivinho, imaginei que o Brasil levaria somente o prêmio de consolação da categoria Filmes Internacionais, pois é evidente que esse tradicional espetáculo criado nos Estados Unidos para fortalecer e valorizar a riquíssima indústria cinematográfica, desde sempre enaltece e valoriza o cinema norte americano.
Uma propaganda estratégica e fundamental que este país utiliza para fortalecer seu império ao conquistar, passivamente e sem violência ou guerras, outros países de todo o planeta, alterando até suas culturas milenares, como no caso dos países asiáticos e do extremo oriente.
Com sua já conhecida hipocrisia e disfarce de baluarte da democracia, esconde por trás duma máscara apolínea e angelical, uma face horrenda de um comportamento vampiresco, que suga impiedosamente as riquezas de outras nações com o apoio passivo e submisso de expressivo segmento de nativos incautos e hipnotizados pela sedução estadunidense.
Tenho observado que quase a totalidade dos temas produzidos para televisão e cinema norte americano tem haver com a luta do bem (EUA) contra o mal (vindo sempre de fora para ameaçar o modo de vida ianque). São filmes de intrigas e conspirações secretas, lutas violentas, perseguições de aviões e carros em alta velocidade, guerras e até desastres naturais, como se a própria natureza fosse contra eles, os quais sempre ganham no final.
Essa lavagem cérebro cultural começa desde cedo através dos desenhos animados de super heróis idolatrados por crianças e adolescentes de todo mundo como Homem Aranha, Super Homem, Capitão América, Homem de Ferro, Quarteto Fantástico e outros, inclusive tendo a sede da Liga das Nações nos Estados Unidos. Nota: eu mesmo, na infância e adolescência, fui um ávido colecionador de histórias em quadrinhos desse gênero.
Quando não produzem violência e guerra nos seus filmes, tratam de temas dramáticos autóctones os quais, geralmente contam histórias de sofrimento e superação humana, seja por alguma doença, injustiça ou mesmo infortúnios do dia a dia. nesses casos, colocam a vida no seu mais alto patamar de importância. Entretanto, paradoxalmente, na vida real são os principais responsáveis pela dor e sofrimento de muitos povos que não seguem sua cartilha. Vide a atual guerra da Ucrânia X Rússia e o genocídio dos palestinos, onde a grande maioria dos mortos e feridos são civis, mulheres e crianças inocentes.
Nessa premiação de ¨Ainda Estou Aqui¨, presenciamos a hipocrisia explícita num tema caro a sofrido para o Brasil na época da ditadura militar, cujo golpe de 1964 foi incentivado, patrocinado e totalmente respaldado pelos norte americanos, com apoio irrestrito da rede Globo.
E nosso povo, como bem diz Harden, comemora de forma exagerada, induzida pela grande mídia, particularmente a Rede Globo, a principal produtora da fumaça que cega grande parte da população brasileira.
É preciso muito cuidado e bom senso nesses tempos de decadência e derrocada de um império que durou muito pouco tempo na história da humanidade, mas que talvez tenha sido responsável por mais mortes, sofrimentos e destruições do que qualquer um dos impérios já estabelecidos na Terra.
Marco Antônio Abreu Florentino
Vamos ao artigo impecável de Oliver Harden:
É preciso olhar além da euforia; é necessário ter cuidado com as cortinas de fumaça.
A celebração de um filme nacional em uma premiação internacional pode ser um marco cultural significativo, mas torna-se um sintoma preocupante quando a euforia coletiva que se forma em torno desse evento é desproporcional à atenção dispensada a questões fundamentais que ameaçam a estrutura social do país.
O fenômeno revela uma patologia social: a fuga para a superficialidade, o torpor da vaidade simbólica e a anestesia coletiva diante do caos iminente.
Vivemos em tempos de espetáculo, onde a estetização da realidade se impõe sobre sua substância. Guy Debord em ¨A Sociedade do Espetáculo¨, já alertava para a inversão de valores em que a imagem não apenas representa a realidade, mas a substitui. O triunfo de uma obra cinematográfica torna-se uma narrativa épica que permite à nação sentir-se momentaneamente vitoriosa, desviando o olhar da ruína que avança impiedosamente sobre a política, a economia e a ordem social. Esse descompasso entre euforia e tragédia ilustra um problema maior: a falência da consciência crítica e a incapacidade de discernir entre o essencial e o acessório.
O problema não reside no júbilo diante de uma conquista artística, mas no fato de que tal júbilo se torne o eixo emocional dominante, obliterando o senso de urgência que deveria existir frente a questões como desigualdade, corrupção, colapso institucional e violência. A alienação coletiva manifesta-se na aversão ao desconforto de encarar o que é feio, o que exige esforço intelectual e mobilização real. O entretenimento, nesses momentos, não apenas diverte, mas cumpre a função política de sedação.
Nietzsche, ao analisar a decadência cultural, já denunciava o perigo das “mentiras reconfortantes” que impedem a ação lúcida. A nação que se envaidece com premiações e ignora sua própria decomposição age como o doente terminal que se alegra por estar bem-vestido no leito de morte. O prêmio se torna uma compensação ilusória, um paliativo psicológico que permite ao país acreditar que ainda é relevante, que ainda respira cultura e sofisticação, quando na verdade suas estruturas fundamentais estão comprometidas.
A indiferença ao caos é, muitas vezes, um mecanismo de negação. A sociedade moderna, hedonista e imediatista, repele tudo o que exige enfrentamento prolongado e reflexão dolorosa. O colapso das democracias raramente ocorre com estrondos súbitos, mas sim com um lento apodrecimento que poucos percebem porque estão distraídos. A Roma decadente também aplaudia seus gladiadores enquanto a podridão corroía os alicerces do Império.
O verdadeiro desafio não é impedir que a nação celebre suas vitórias culturais, mas resgatar sua capacidade de indignação e consciência crítica. O pensamento lúcido não pode ser subjugado pelo êxtase efêmero de conquistas simbólicas. A cultura tem valor quando não apenas emociona, mas também ilumina, inquieta e impulsiona à ação. Enquanto a ruína avança silenciosa, a questão essencial permanece: haverá quem ouse olhar para além da cortina de fumaça do espetáculo?
Oliver Harden
Marco Florentino e Oliver Harden
Enviado por Marco Florentino em 03/03/2025
Alterado em 03/03/2025