LAPSO EXISTENCIAL ENTRE DOIS NADAS
LAPSO EXISTENCIAL ENTRE DOIS NADAS
(O cadáver adiado)
A vida do ser humano, enquanto condição existencial, racional e
consciente, é um lapso na linha infinita do espaço tempo.
Nesse movimento imperativo contínuo e inexorável, surge do nada uma
vida que caminha, novamente, em direção ao nada.
É como se fosse uma interferência essencialmente imprevista, mas
naturalmente integrada ao sistema, como evento resultante da força
energética vital dos seres e entes em geral.
Nesse momento de existência efêmera, os entes procuram,
instintivamente, se perpetuar através da reprodução e procriação,
sendo que na espécie humana, pela sua circunstância racional, além do
instinto, reside a vontade e a necessidade da representação
permanente, não aceitando sua inevitável finitude.
Talvez seja esse o principal motivo da angústia, presente em todo seu
lapso existencial, consciente ou não.
Essa reflexão sempre esteve presente nos encontros dos pardais Luiz
César, Brilhante e Marco Antônio. Este último sempre defendendo que
nossa perpetuação eterna ocorre na obra de arte.
Para Luiz, retornado recentemente ao nada na linha do tempo espaço,
sua eternidade ficaria presente nos seus descendentes. Com essa
perspectiva, aceitava naturalmente a morte, o que, efetivamente, não
ocorreu. Luiz sofreu ao partir, em consonância com sua condição
humana, demasiadamente humana.
A seguir, repasso mais um texto desse admirável virtuose da filosofia
poética... Oliver Harden. Discorre sobre esse tema em comum acordo com
meu pensamento.
Marco Antônio Abreu florentino
O HOMEM: UM CADÁVER ADIADO QUE PROCRIA
Fernando Pessoa, na sua precisão filosófico-poética, sintetiza em sua
lapidar sentença uma das mais inquietantes e inevitáveis verdades da
existência humana: a finitude. O homem é um “cadáver adiado”, isto é,
um ser que caminha, inexoravelmente, em direção à morte, e que, no
intervalo entre o nascimento e o fim, perpetua sua espécie, como que
tentando ludibriar a fatalidade do tempo por meio da reprodução.
Essa constatação não é nova. Desde a Grécia Antiga, os filósofos
debateram a efemeridade da vida e a busca do homem por um sentido que
a transcendesse. Platão, por exemplo, via na procriação não apenas uma
necessidade biológica, mas também uma tentativa de perpetuar algo de
si no mundo. Aristóteles, por sua vez, reconhecia na geração dos
filhos um reflexo do impulso natural de todo ser vivo para a
imortalidade – não em sua individualidade, mas na continuidade de sua
essência.
O pensamento de Pessoa ressoa também em Schopenhauer, que enxergava a
vida como uma trágica repetição de sofrimento e luta, onde a
procriação era um meio pelo qual a Vontade perpetuava o ciclo do
desejo e da dor. Para o filósofo alemão, o homem, ao gerar
descendência, não apenas assegura a continuidade da espécie, mas
também condena novos seres ao sofrimento inerente à existência
.
Nietzsche, por outro lado, diante dessa mesma constatação, propunha
uma resposta distinta: em vez de resignação, a afirmação da vida, a
criação de valores próprios e a superação do niilismo. Em certo
sentido, a ideia de ser um “cadáver adiado” poderia ser combatida pela
transfiguração da existência em algo que fosse digno de ser vivido.
O paradoxo da frase de Pessoa reside na sua ironia amarga: a vida,
esse intervalo entre dois nadas, é preenchida pela ilusão da
continuidade. O homem não apenas se reconhece como finito, mas age
como se pudesse enganar sua condição mortal por meio da descendência.
Procria para que algo de si sobreviva, mesmo que, no fundo, saiba que
sua individualidade está condenada ao esquecimento.
Mas há, na concepção pessoana, também uma sugestão de absurdo e
mecanicidade, como se a existência fosse um ato automático, um impulso
biológico desprovido de sentido superior. Essa é a visão que se alinha
ao existencialismo de Camus, para quem o homem está condenado a buscar
sentido em um universo indiferente.
Se somos, de fato, cadáveres adiados, resta-nos questionar se o
adiamento da morte é apenas uma espera ou se pode ser uma construção.
A consciência da finitude pode ser um fardo, mas também um motor para
uma vida mais autêntica.
Procriar pode ser apenas um reflexo do instinto ou uma tentativa de
transmissão de valores e significados. No fim, a sentença de Pessoa
nos obriga a encarar a verdade essencial da nossa condição: somos
mortais, e tudo o que fazemos, incluindo gerar vida, não passa de uma
forma de negociar com o tempo antes de nossa inevitável dissolução.
Oliver Harden
Marco Florentino e Oliver Harden
Enviado por Marco Florentino em 27/02/2025
Alterado em 27/02/2025